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SENTIR E CONHECER - "CABOCLA JUREMA"

Por Vânia Corrêa Pinto

A partir da música "Cabocla Jurema" (domínio público. Adaptação: Rosinha de Valença), gravada por Maria Bethânia no CD Brasileirinho, a turma 1012 do Colégio Estadual Vicente Jannuzzi (Rio de Janeiro) fez uma reflexão a relação entre Sentir e Conhecer, dentro da proposta do Projeto Brasileirinho - Os Tons da Aquarela Cultural de nosso País.

A idéia do seminário foi, sob a luz da filosofia, subsidiar reflexões sobre o papel do que se sente no conhecimento da cultura popular. Trazer o aroma da Jurema para nos auxiliar na discussão sobre a problemática do conhecimento.

Jurema é Antiga e contemporânea; se encontra presente no imaginário brasileiro. As suas raízes botânicas e étnicas, refugiam-se para além do seu território, preservando troncos "vegetais" e "semânticos" do culto de caboclos. Vamos descrever processos de semiose próprios desta seiva "selvagem" que representa toda nossa brasilidade e nos leva para compreensão de diferentes processos de cognição social.

O Grupo 1 (Marcelle, Mayara, Jefferson, Ingrid Pinheiro) abordou o tema Raízes e Ramificações da Jurema.

Marcelle - A palavra "Jurema" apresenta diversos significados - dependendo da região brasileira, seus significados podem ser bem distintos. Porém, trazem sempre a mesma essência da brasilidade. Jurema é uma árvore, mas não exatamente. Sua referência botânica é meio indefinida - quimicamente a Jurema (nome científico Mimosa tenuiflora) apresenta um alcalóide da família dos alucinógenos indólicos. O seu consumo está associado a um ritual indígena sagrado que "abre encantos" capazes de explicar as alterações de consciência por ela provocados.

Mayara - A partir da conclusão da Marcelle podemos ver que Jurema é árvore, bebida e também cerimônia religiosa celebrada pelos índios ou caboclos. Às vezes distinguida como uma religião específica no complexo cenário da espiritualidade brasileira. O culto da Jurema encontra-se em diversas práticas religiosas como: pajelança, toré, catimbó, umbanda, candomblé de caboclo etc.

Jefferson - Jurema é uma "entidade espiritual" - pode ser local de culto e oração, mundo espiritual, plano espiritual; enfim, Jurema é uma índia METAFÍSICA; não a vemos, mas podemos SENTI-LA E CONHECÊ-LA.

Ingrid Pinheiro - Agora vamos ao ponto central da questão: QUAL A RELAÇÃO QUE EXISTE ENTRE SENTIR E CONHECER?

O Grupo 2, integrado por Denise Maria, Diana, Joyce, Caroline e Ingrid Bitarães, tratou do tema O papel do que se sente no conhecimento de si mesmo

Denise - Para responder a pergunta do grupo 1 utilizamos dois textos:

Texto 1: "A primeira questão por conseguinte seria esta: como é o eu para si mesmo? E o primeiro postulado: Pensa-te a ti mesmo, constrói o conceito de ti mesmo e observa como fazes.. Todo aquele que fizer isso, somente em o fazer, afirma o filósofo, constatará que, ao pensar sobre esse conceito, sua atividade como inteligência volta-se sobre si mesma, faz de si mesma seu objeto(...)" (Fichte)

Texto 2 - Poema "Tabacaria", de Fernando Pessoa: "Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada/ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo (...)/ Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade/ Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer (...)/ Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou que esqueceu/ Estou hoje dividido entre a lealdade que devo/ À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora/ E a sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro (...)/ Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?/ Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?/ Serei o que penso? Mas penso ser tanta coisa! (...)/ Fiz de mim o que não soube,/ E o que podia fazer de mim não o fiz/ O dominó que vesti era errado/ Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e pedir-me./ Quando quis tirar a máscara,/ Estava pregada à cara/ Quando a tirei e me vi no espelho/ Já tinha envelhecido./ (...) Essência musical dos meus versos inúteis, / Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,/ E não ficasse sempre defornte da Tabacaria de defronte, / Calcando aos pés a consciência de estar existindo,/ Como um tapete que um bêbado tropeça/ Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada (...)"

Diana - Após a leitura desses dois textos, deixamos com a turma algumas perguntas: aquilo que você sente, faz você ser você? Alguém poderia expressar, melhor do que você, seus próprios sentimentos? Quando você sente alguma coisa, sempre sabe por quê? Você se pergunta por que sente o que acabou de sentir? Você deseja coisas que não gostaria de desejar? O que pensa sobre esses "desejos indesejáveis"? Qual o papel do sentimento e do pensamento no conhecimento de si mesmo?

O Grupo 3, formado por Diego Rangel, Bruno da Silva, Renata e Bianca, abordou o tema Imaginário Social e Representação.

Diego - Atualmente existe uma tendência mundial em achatar e reduzir o conhecimento popular em detrimento de uma cultura globalizada e universal. Qualquer tomada de partido a respeito da construção do imaginário social como conhecimento tem implicações éticas e repercussões políticas. Define-se uma pré-concepção do lugar do sujeito popular na sociedade, para reafirmar a superioridade da cultura das elites, em vez do reconhecimento das diferenças.

Bruno - Em meio a esse processo de "achatamento" cultural que passa toda a sociedade brasileira, nós alunos do Ensino Médio apostamos no interesse em dar ouvidos à voz do povo para trazer elementos para uma reflexão sobre o conhecer - correndo o "risco" de ouvir Deus, conforme o ditado, mas pelo menos, em forma de bela e sensual mulher

Renata - Sob a luz da filosofia, iremos trabalhar o Imaginário Social e sua Representação, sob três formas principais: o Pensar não se subordina ao controle consciente dos usos da linguagem; reflexões sutis e complexas podem ser pensadas e ditas à revelia da consciência - não dependendo nem da "erudição" nem da "inteligência"; o Inconsciente formula-se como linguagem.

Bianca - Uma contribuição fundamental para o exame da representação no mundo moderno é Heidegger. Para ele, nos tempos modernos, o existente só se concretiza na representação e só assim se torna existente, ou seja, torna-se disponível para a representação como objeto. A partir dele, o mundo se torna imagem e o homem, sujeito. O mundo se transforma em imagem e o homem é representado junto com o mundo. Ser é ser representado. Nesse quadro, o não representado simplesmente não existe. Depois de um período em que se acreditou muito nessa teoria, ela vem sendo questionada.

O Grupo 4, tendo por integrante Alessandro, Edvaldo, Priscila Vieira e Robson, tratou da Crise da representação.

Alessandro - Um marco filosófico importante para resolver a crise da representação encontra-se em Nietzsche, onde o conhecimento aparece, pela primeira vez, como sintonia da verdade subjetiva do eu e não como imagem neutra da realidade. O conhecimento não se dá como simples representação, mas como a relação que se estabelece entre o sujeito (o eu) e o objeto (a realidade).

Priscila - Outro golpe decisivo contra as pretensões do "representar" ao domínio cognitivo do ser é apontado pela descoberta do inconsciente. A separação entre representação e consciência inviabiliza um modelo de conhecimento. Como podemos conhecer? Pela representação? Pela inconsciência? Pela consciência? Eis a questão.

Robson - Podemos conhecer de várias formas - uma vez que temos consciência de nossa existência. Nosso debate sobre esse problema pode ser enriquecido recorrendo a uma questão empírica, o caso da Jurema. Sua posição de destaque na cultura popular e a suas variadas dimensões (psicológica, social, política, étnica, religiosa, histórica, bioquímica, literária, botânica e antropológica) contribuem para que se constitua um caso exemplar das dificuldades em refletir representacionalmente. Seus inúmeros significados e imagens que lhe são associados não recomendam a sua redução a objeto representativo.

Alessandro - No entanto, proceder desta forma é desistir de prestar atenção à Jurema, tão profundamente reveladora do brasileiro e popular. Podemos contrariar esse risco, deixando-a se fazer representar, sendo representada e acima de tudo sendo doadora de sentidos.

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