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TRANSFORMAR-SE - "PURIFICAR O SUBAÉ"

Por Vânia Corrêa Pinto

Dentro da proposta do Projeto Brasileirinho - Os Tons da Aquarela Cultural de nosso País, uma das turmas de Ensino Médio do Colégio Estadual Vicente Jannuzzi (Rio de Janeiro) utilizou a música "Purificar o Subaé" (Caetano Veloso), gravada por Maria Bethânia no CD Brasileirinho, para reflexão à luz de textos dos filósofos Hannah Arendt e Júlian Marias que dão conta do que o agir e o fazer revelam sobre o ser humano.

Comecemos com a letra da música:

"Purificar o Subaé/ Mandar os malditos embora/ Dona d'água doce quem é/ Dourada rainha senhora/ Amparo do Sergimirim/ Rosário dos filtros da aquária/ Dos rios que desaguam em mim/ Nascente primária// Os riscos que corre essa gente morena/ O horror de um progresso vazio/ Matando os mariscos e os peixes do rio/ Enchendo meu canto/ De raiva e de pena."

Em interpretação livre, um aluno chamou a atenção principalmente para o discurso de denúncia contido na música e perguntou à turma o que eles entenderam a partir dos versos "Dos rios que desaguam em mim, nascente primária". Os "rios que desaguam" foram interpretados da seguinte forma: o que o autor é, pensa, sente, vive - suas raízes, origens, tudo que lhe vem - tem um ponto de partida, uma trajetória, uma história, um começo que é o Rio Subaé - daí classificá-lo como "nascente primária" - não só no sentido biológico do termo, como também, no sentido de que o rio se torna para o autor a própria expressão de si mesmo, o entendimento de si mesmo, seus sentimentos, suas emoções. Seguem-se as intervenções de outros alunos:

Aluno 3 - Segundo Hannah Arendt, só o homem é capaz de exprimir sua diferença e distinguir-se; só ele é capaz de comunicar a si mesmo e não apenas alguma coisa - como sede, fome, afeto, hostilidade ou medo. Essa distinção vem à tona no discurso e na ação - a música exprime bem essa distinção, uma vez que por meio deste discurso o autor pode distinguir-se, ao invés de permanecer apenas indiferente: a ação e o discurso são os modos pelos quais os seres humanos se manifestam, uns aos outros, não como mero objetos físicos, mas como homens.

Aluno 4 - Voltem novamente na música e tentem encontrar uma resposta para a seguinte questão: "Como o comunicar pode se ligar ao agir e ao fazer?". Segundo Aristóteles, o princípio da ação está sempre em nós. Agir no sentido mais geral do termo, significa tomar a iniciativa, iniciar, imprimir movimento a alguma coisa. O fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável.

Aluno 5 - Na ação e no discurso os homens mostram quem são, revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares, e assim apresentam-se ao mundo humano, enquanto suas identidades físicas são reveladas, sem qualquer atividade própria, na conformação singular do corpo e no som singular da voz. Esta revelação de "quem" em contraposição a "o que" a pessoa é, está implícita em tudo o que se diz ou faz.

Aluno 6 - E o fazer? O que ele revela sobre o ser humano? Segundo Julián Marias, a vida não está feita; ao contrário, temos que a fazer: e ela é o que eu faço, o fazer mesmo. Mas a vida não se define simplesmente por um fazer no sentido de mero acontecer ou atividade; fazer em sua significação rigorosa de fazer humano, é sempre o meu fazer, ou, com maior precisão, eufazer. A vida é minha; além de ser fazer, é propriamente quefazer, tarefa imposta ao ser que tem de viver, destino, missão.

Aluno 1 - A filosofia atual deu-se conta de que, antes de poder falar que a vida tem ou não uma missão a realizar, é ela mesmo a missão. Desse modo a vida consiste em preocupação de si mesma e está essencialmente constituída pela temporada, na qual não só está ou acontece, como sobretudo se faz.

Aluno 2 - Como podemos separar o "agir do fazer" através da música "Purificar o Subaé"? Podemos dizer que o fazer gera produtos - portanto, o fazer está ligado às questões relativas ao trabalho, à tecnologia etc.

Aluno 3 - O agir para nós, está muito mais interligado ao campo das ações morais, políticas, artísticas etc.

"Purificar o Subaé
Mandar os malditos embora
Dona d'água doce quem é
Dourada rainha senhora
"

O autor nessa música, transforma-se, transformando a realidade, a partir do momento que parte para o agir - quando não aceita passivamente a destruição de um rio. Ele tem noção de que se transforma no próprio agir e como este pode se multiplicar.

Aluno 3 - A música tem o poder de despertar a ação nas pessoas - ela parte com a função de conscientização, ao mesmo tempo que constrói o ser humano - suas qualidades e seus sentimentos. O cantor vai "cantar" aquilo em que ele acredita. De uma certa forma, ele deve manter sua independência em sua própria esfera e certificar-se de que está servindo à humanidade.

Aluno 4 - Caso contrário, ainda que venha se tornar famoso como poeta, autor ou cantor, não será jamais um grande homem. Nunca nos realizamos verdadeiramente, a menos que estejamos (a nosso jeito) agindo para o bem do outro; nesse caso, não só nosso fardo não será pesado demais, como também nossas satisfações não serão apenas alegrias egoístas. Assim, como dizia o filósofo Karl Marx, precisamos estar atentos para evitar cair na mais perigosa de todas as tentações: o fascínio do pensamento abstrato.

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