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AMOR E PERDA - "SUSSUARANA"

Por Vânia Corrêa Pinto

A partir da música "Sussuarana" (Heckel Tavares - Luiz Peixoto), gravada por Maria Bethânia no CD Brasileirinho, a turma 1010 do Colégio Estadual Vicente Jannuzzi (Rio de Janeiro) fez uma reflexão dentro da proposta do Projeto Brasileirinho - Os Tons da Aquarela Cultural de nosso País. fizemos uma distinção entre Amor e Perda. Comecemos pela letra da música:

"Faz três semanas que na festa de Santana/ O Zezé Sussuarana/ Me chamou pra conversar/ Dessa bocada nós saímo pela estrada/ Ninguém dizia nada/ Fumo andando devagar/ A noite veio, o caminho tava em meio/ Eu tive aquele arreceio/ Que arguém nos pudesse ver/ Eu quis dizer 'Sussarana vamo imbora'/ Mas Virge Nossa Senhora/ Cadê boca pra dizer?// Mais adiante do muno já bem distante/ Nós paremo um instante/ Prendemo a suspiração/ Invregonhado ele partiu para o meu lado/ Ó Virge dos meus pecados/ Me dê absorvição/ Foi coisa feita, foi mandinga, foi maleita/ Que nunca mais indireita/ Que nos botaro é capaz/ Susuarana/ Meu coração não me engana/ Vai fazê cinco semana/ Tu não vorta nunca mais"

Nossa intenção nesse seminário é abordar a música "Sussuarana" fazendo uma leitura dessa obra a partir de elementos que estamos vivendo no nosso dia a dia: sentimentos de Amar e Perder. De acordo com a opinião do grupo, a música trata de uma paixão amorosa que levou a um amor intenso, auma perda.

O risco de amar é a separação. Mergulhar numa relação amorosa supõe a possibilidade da perda. Segundo o psicanalista austríaco Igor Caruso, a separação é a vivência da morte numa situação vital: a morte do outro em minha consciência e a vivência da minha morte na consciência do outro. Por exemplo, quando deixamos de amar ou não somos mais amados; ou, ainda, se as circunstâncias nos obrigam à separação, mesmo quando o amor recíproco permanece.

Uma aluna contou experiência pessoal sobre o namoro que não deu certo e o "fora" que tomou (detalhe: o aluno de que ela gosta está presente na sala de aula!).

Se a perda é sentida de forma intensa, a pessoa precisa de um tempo para se reestruturar, porque, mesmo quando conseguiu manter a individualidade, o tecido do seu ser passa inevitavelmente pelo ser do outro. Há um período de "luto" a ser superado após a separação, quando então é buscado um novo equilíbrio (que pode ser um novo amor, uma nova possibilidade de felicidade, como um trabalho, um curso, uma diversão etc.).

Uma característica dos indivíduos maduros é saber integrar a possibilidade da morte no cotidiano da sua vida. Ao falarmos em morte não nos referimos apenas ao sentido literal da palavra, mas às diversas "mortes" ou perdas que passam pela nossa vida.

Agora, uma das características de nós, adolescentes, é achar que toda separação é o fim do mundo, que nunca mais vamos encontrar alguém, que ninguém nos ama, que somos os últimos seres do planeta. Até mesmo a separação de nossos pais pode representar um obstáculo intransponível.

Mesmo nas relações duradouras, as pessoas mudam, e a modificação do tipo de relação significa conseqüentemente a perda antiga de expressão do amor. Aí é aquela velha história dos casamentos de muitos anos em que os casais se acostumam, caem na rotina e o amor, aos poucos, vai dando lugar a novos sentimentos - nossos pais conhecem bem essa situação.

Nas sociedades massificadas, porém, em que o "eu" não é suficientemente forte, as pessoas preferem não viver a experiência amorosa para não ter de viver com a "morte". Talvez por isso as relações tendam a se tornar superficiais, e é justamente no sentido contrário a essas sociedades massificadas que a música "Sussuarana" chega até nós - trata-se de um amor intenso, com forte envolvimento emocional, onde o "eu" não hesita em se entregar e pagar o "preço" que essa entrega pode exigir. Para nós essa entrega ficou bem clara nos seguintes versos:

"mais adiante do mundo já bem distante
nós paremo um instante
prendemo a suspiração
"

Achamos lindo esse tipo de entrega que se torna como um "sair de si e ir ao encontro do outro" - há também um momento magnífico de transcendência - "mais adiante do mundo já bem distante"- supõe que a relação dos dois seja de tal forma envolvente, absurdamente profunda, que chega a sair do mundo sensível (imanência) e penetrar o plano metafísico (transcendência) - o amor permite ao homem alcançar o infinito.

Quando na música é citado o fato de um dos amantes temer "que arguém nos pudesse ver", percebemos os paradoxos do amor. Há algo de proibitivo, de censura, que impede a consumação pública do amor - ele está escondido, longe dos olhos alheios. Quando dizemos que os amantes buscam o encontro, isso não significa que a meta alcançada represente algo estático. Muito ao contrário, começa aí o caminho que será o tempo todo objeto de construção e reconstrução. O paradoxo vínculo e alteridade é outro desafio das relações amorosas. Alter, em latim, significa "outro", ou seja o amor deve ser uma união, com a condição de cada um preservar a própria integridade; o amor faz com que dois seres estejam unidos e, contudo, permaneçam separados.

Manter a alteridade é permanecer outro, é evitar fusão, é exigir respeito, não no sentido moralista, nem como temor que resulta da autoridade imposta. Respicere, em latim, significa "olhar para", ou seja, o respeito é a capacidade de ver a pessoa como ela é, e não como queremos que ela seja. O amor maduro é livre e generoso, fundando-se na reciprocidade, não na exploração: O outro não é alguém de quem nos servimos.

Nas grandes cidades, as relações tendem a se tornar superficiais, e é nesse sentido que o pensador francês Edgar Morin afirma: "Nas sociedades burocratizadas e aburguesadas, é adulto quem se conforma em viver menos para não ter que morrer tanto."

Porém, para nós, o segredo da felicidade é este: vida quer dizer arriscar-se à morte; e fúria de viver quer dizer viver a dificuldade!

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